Dona Julia, importante parcela viva da história de Caçador entrevista ao jornal Folha em 17/02/1996.

Nascida na cidade de Porto União da Vitória/Pr, no dia 3 de Outubro de 1911, Júlia Gioppo Carneiro, veio pra Caçador com os pais no dia 12 de fevereiro de 1919, quando a Vila de Caçador tinha apenas duas casas. Casada com Fermiano Carneiro D. Julia teve treze filhos: Margarida, Salomão, José, Umbelina, Antônio, Julieta, Maria, Amélia, João Pedro, Fermino Junior, Célio, Clara e Clélia. São muitos netos e bisnetos.
    Apesar dos seus 84 anos (em 1996), Julia Gioppo Carneiro vive uma vida intensa produzindo deliciosos doces,compotas. Tem na leitura, especialmente jornal que lê diariamente, um de seus passa-tempos favoritos, além de televisão onde assiste algumas novelas.
    Memória lúcida nossa entrevistada lembra fatos importantes do seu tempo de juventude quando Caçador nada mais era do que um imenso mato sem nenhum benefício do progresso sentido hoje.

Jornalista Raul Tomazoni.

F O L H A - Quais as lembranças de Caçador de 1919?
J Ú L I A - Quando viemos para Caçador só tinha duas casinhas, ambas na Vila (hoje centro da cidade) Tinha também a Estação Férrea onde moravam os conserveiros da ferrovia. As duas casas eram do Vergilio Formigheri e a outra de Martim Trindade.

F O L H A - A família Gioppo sempre morou aqui, onde hoje denominamos de "Bairro Gioppo". Como era feito o trajeto para o centro da Vila?
J U L I A - Daqui até o centro a distancia era de 1 quilometro. O trajeto era feito pela estrada de ferro, onde existia a única ponte pra atravessar o Rio do Peixe.

F O L H A - A vida social como era?
J U L I A - Não existia nada além de trabalho. Só na serraria alem de pertinho tinha alguma festinha de vez quando. Essa serraria era do Luiz Tortatto e do José Gioppo, tendo sido a primeira serraria instalada em Caçador. Onde? nas imediações onde hoje esta a Igreja Brasileira.

F O L H A - Lembra quantas famílias residiam em Caçador naquele tempo?
J U L I A - Tinha a família do Vergilio Formigheri, do Martim Trindade e dos conserveiros da estrada de ferro. Só mais tarde vieram 18 membros da família Gioppo e 18 membros da família Tortatto,quando então foi construída a serraria que falamos a pouco. A partir daí começou a chegar mais moradores.

F O L H A - E as escolas?
J U L I A - Quando nós chegamos não existia nenhuma escola aqui. A primeira foi construída em 1922. Quer dizer de 1919 à 1922 não tinha nenhuma. Nós que freqüentávamos escola em Porto União ficamos esse tempo sem aula, depois sim voltamos a estudar.

F O L H A - Como conheceu o Fermiano, com que casaria mais tarde?
J U L I A - O Fermiano era morador da Fazenda São Pedro em, São João dos Pobres. Foi numa visita a Vila. Eu estava na casa minha irmã ajudando a cuidar das crianças. Foi aí que conheci o Fermino. Mais tarde veio o noivado e o casamento. Aí fui morar na Fazenda São Pedro onde fiquei 8 anos. Depois sim voltamos a morar em Caçador.

F O L H A - Moradora desde 1919, como viu o crescimento de Caçador?
J U L I A - Não há comparação. Onde era só mato hoje a gente vê casas e mais casas, tudo cresceu.

F O L H A - Quais as diferenças do seu tempo de juventude para os dias de hoje?
J U L I A - Existe muita diferença. No meu tempo a gente ia nos bailes e as diversões eram sadias, hoje é muito diferente.

F O L H A - Assistência médica existia naquele tempo?
J U L I A - Aqui não tinha medico, nem farmácia. No Porto União tinha,mas a maioria ia para Ponta Grossa que era um centro maior.

F O L H A - A família Gioppo tinha várias atividades, quais eram?
J U L I A - Meu irmão fazia sorvete, o gelo era trazido de Porto União pelo trem e o sorvete era batido à mão. A família Gioppo também tinha uma fabrica de refrigerantes, uma fabrica de cadeiras, moinho de trigos e moagem de café.

F O L H A - Alguma mensagem aos mais jovens?
J U L I A - Gostaria que as coisas fossem como no meu tempo. Os filhos eram mais obedientes. Havia mais idosos. Certo que o mundo evoluiu e que a gente tem que se adaptar a esse progresso.

F O L H A - Quais as suas ocupações hoje?
J U L I A - Sou leitora da Folha. Gosto muito de leitura. Assisto também algumas novelas. Na minha cozinha faço uma variedade de doces e compotas, além de tricô.

F O L H A - Existia energia elétrica?
J U L I A - No inicio não havia. Mais tarde meus irmãos instalaram um gerador movido a água. Aí os poucos moradores passaram a ter luz elétrica em suas casas, inclusive o cinema local funcionava com essa energia elétrica.

Transcrição da reportagem do Jornal Folha em 17 de fevereiro de 1996, ed. 416 das páginas 10 e 11

 
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